Este artigo C1 mergulha no vocabulário político da Revolução Francesa : sans-culottes, girondinos, montanheses. Você descobrirá a etimologia dessas palavras, sua carga ideológica inicial e sua sobrevivência — às vezes polêmica — no francês contemporâneo.
Sans-culottes, girondinos, montanheses : as palavras de 1793
Em 1793, a França revolucionária não conhece mais os fidalgos nem os vassalos : ela inventa um vocabulário político novo, áspero, onde cada termo designa um campo, uma ideologia, às vezes um inimigo a abater. Sans-culottes, girondinos, montanheses — essas três palavras atravessam as décadas e ainda assombram nossos debates. Por que um gorro vermelho faz o Antigo Regime tremer ? Por que « jacobino » continua sendo um insulto ou um elogio dependendo de quem pronuncia a palavra ? Eis o léxico político do ano II, explicado para o leitor do século XXI.
Os sans-culottes : o povo de calças
O termo sans-culotte nasce por oposição vestimentária. A culotte — aquela peça curta que para no joelho, usada com meias de seda — é apanágio da aristocracia e da alta burguesia. O homem do povo, ele, usa uma calça comprida, de tecido grosseiro. Dizer de alguém que é « sem culotte » é situá-lo socialmente : artesão, lojista, operário parisiense. Por volta de 1792, a palavra se torna um estandarte político.
Os sans-culottes parisienses encarnam a democracia direta das seções — essas assembleias de bairro onde se vota erguendo a mão, onde se vigiam os eleitos, onde se exige pão e cabeças. Seu emblema vestimentário ? O gorro frígio (ou gorro vermelho), que deveria lembrar o gorro dos escravos libertos em Roma. Sua dança de mobilização ? A carmagnole, roda frenética cantada numa melodia zombeteira. Sua linguagem ? Tuteo generalizado, tratamento formal banido como resquício monárquico.
O sans-culotte ideal vive com parcimônia, recusa o luxo, reclama a taxation (fixação autoritária de preços) e a levée en masse (recrutamento obrigatório para defender a pátria). Ele desconfia dos « graúdos », dos açambarcadores, dos deputados bem-vestidos demais. Ele quer a República una e indivisível — fórmula que se tornará catecismo jacobino.
Evolução semântica : desde 1794, depois de Thermidor, « sans-culotte » vira um insulto retrospectivo, sinônimo de agitador sanguinário. No século XIX, os conservadores o empregam para desacreditar qualquer aspiração popular. Hoje, a palavra volta num uso histórico neutro ou, às vezes, reivindicado pela extrema esquerda como símbolo de radicalidade democrática.
Os girondinos : federalistas esmagados
A palavra girondino vem do departamento de Gironde (Sudoeste). Uns vinte deputados eleitos nessa região — Brissot, Vergniaud, Gensonné — formam na Convenção um grupo moderado, hostil à ditadura parisiense dos sans-culottes. Eles também são chamados de brissotinos (do nome de Jacques-Pierre Brissot) ou, pejorativamente, a Gironde.
Sua ideologia ? Um federalismo prudente : eles desejam que os departamentos conservem autonomia frente a Paris, temem o Terror, defendem a propriedade e o comércio. Eles votam pela morte de Luís XVI, sim, mas com relutância. Desconfiam de Robespierre, de Marat, de Danton. Erro fatal : em junho de 1793, a Convenção, sob pressão dos sans-culottes em armas, manda prender 29 deputados girondinos. Vergniaud, Brissot e seus camaradas são guilhotinados em outubro de 1793.
O termo girondino adquire então uma conotação dupla :
- Pejorativa (visão montanhesa) : traidor federalista, cúmplice secreto da contrarrevolução, inimigo do povo.
- Positiva (visão liberal) : mártir da moderação, vítima do Terror jacobino.
Sobrevivência moderna : « girondino » ainda se emprega para designar uma corrente política moderada esmagada pelos extremos. O jornal La Gironde (Bordeaux) carrega esse nome em homenagem aos deputados de 1793. Certos federalistas europeus reivindicam a herança girondina contra o « jacobinismo » centralizador francês.
Os montanheses : jacobinos do Terror
A palavra montanhês (ou a Montanha) designa os deputados que se sentam nas arquibancadas superiores da Convenção — por oposição à Planície (ou o Pântano), deputados centristas instalados mais embaixo. Maximilien Robespierre, Georges Danton, Louis-Antoine de Saint-Just, Jean-Paul Marat : eis a Montanha. Eles dominam o clube dos Jacobinos (instalado na rua Saint-Honoré, no antigo convento dos Jacobinos — dominicanos —, de onde vem o nome).
Os montanheses encarnam a radicalidade revolucionária : República una e indivisível, Terror como instrumento político, centralização absoluta, culto da virtude cívica. Robespierre fala de regeneração moral, Saint-Just teoriza a ditadura de salvação pública. Para eles, a Revolução está ameaçada de todos os lados (aristocratas, federalistas, potências estrangeiras) : só o terror pode salvá-la. Daí a lei dos suspeitos (setembro de 1793), o Tribunal Revolucionário, a guilhotina permanente.
A palavra jacobino, no início simples nome geográfico, torna-se sinônimo de montanhês e depois, por extensão, de todo revolucionário centralizador e dogmático. Napoleão Bonaparte vai se declarar « jacobino » em sua vontade de unificar o Estado ; os republicanos do século XIX erguerão o jacobinismo como herança gloriosa contra os monarquistas.
Polissemia atual :
- Sentido histórico : membro da Montanha (1793-1794).
- Sentido político amplo : partidário de um Estado forte, centralizado, hostil aos autonomismos regionais. « A tradição jacobina francesa » = defesa da unidade nacional, laicidade militante, recusa do comunitarismo.
- Sentido pejorativo : dogmático, sectário, incapaz de nuance. « Ele é muito jacobino em suas posições » = rígido, intolerante.
Os federalistas (catalães, escoceses, flamengos) empregam « jacobino » como insulto contra Paris ou o Estado francês, acusado de esmagar as minorias. Inversamente, certos soberanistas de esquerda reivindicam o jacobinismo como barreira contra o neoliberalismo e a globalização.
Muscadins e termidorianos : a reação de 1794
Depois da queda de Robespierre (9 termidor ano II, ou seja, 27 de julho de 1794), o Terror cessa. Uma juventude dourada, monarquista ou simplesmente antijacobina, ocupa as ruas de Paris : os muscadins. A palavra vem de musc (almíscar), perfume da moda, que esses elegantes usam ostensivamente. Eles se vestem de incroyables (casaca exagerada, gravata desmedida, linguagem preciosa), batem nos antigos sans-culottes, fecham os clubes jacobinos.
Os termidorianos — deputados que organizaram a queda de Robespierre — instauram um regime mais conservador (o Diretório, 1795-1799). « Termidoriano » torna-se sinônimo de reação, de retrocesso após uma fase revolucionária.
Uso moderno : « reação termidoriana » se emprega nas ciências políticas para designar o refluxo após uma revolução. Exemplo : certos analistas falaram de « termidor stalinista » (anos 1930) ou de « termidor castrista » (Cuba pós-1970). A palavra permanece confinada ao registro erudito.
Por que essas palavras continuam vivas ?
Porque a Revolução Francesa inventou o vocabulário da política moderna : esquerda e direita (nascidos no hemiciclo), terror, democracia, cidadão, pátria. « Sans-culotte », « girondino », « montanhês » não são simples etiquetas históricas : eles designam posturas ideológicas ainda ativas.
A clivagem jacobino / federalista ainda estrutura os debates franceses (e europeus). Deve-se reforçar o Estado central ou favorecer as regiões ? A laicidade deve ser intransigente (jacobina) ou acomodativa (girondina) ? Essas questões reencenam, em surdina, o conflito de 1793.
A palavra « sans-culotte » reaparece nos movimentos sociais radicais (Coletes Amarelos, certas franjas do La France insoumise) como símbolo do povo contra as elites. « Montanhês » foi até usado como nome de corrente política : o grupo La Montagne na Assembleia Nacional (1849-1851), certos deputados comunistas nos anos 1950.
« Girondino », por outro lado, continua pejorativo ou irônico. Tratar alguém de girondino é sugerir que ele é frouxo, incapaz de radicalidade, cúmplice objetivo da direita.
Língua e memória política
Essas palavras atravessam os séculos porque condensam afetos, lealdades, ódios. Dizer « jacobino » ou « girondino » é tomar partido sobre 1793, claro, mas também sobre a Europa, a laicidade, o Estado-nação, a própria revolução. O francês político moderno permanece assombrado pelo ano II. Cada eleição, cada crise reaviva os fantasmas da Convenção : sans-culottes contra muscadins, Montanha contra Gironda.
Compreender essas palavras é compreender por que o debate público francês continua tão apaixonado, tão binário, tão propenso ao anátema. A Revolução não terminou : ela ainda fala em nossa língua.
— Vincent · vulgo « Monsieur Merci Bonjour »

