Dois subterrâneos, duas capitais. O metrô em Paris, o metrô no Rio.
Um desce desde 1900, o outro desde 1979. Um tem 16 linhas e 308 estações,
o outro tem 3 e 41. Um se pega de casaco, o outro de chinelo. Mas ambos
dizem a mesma coisa: de manhã, às 8 h, todo mundo vai para o mesmo lugar —
o trabalho.
O confronto
O metrô parisiense (França, 1900–…) — Linha 1 inaugurada em 19 de julho
de 1900, sete meses antes da Exposição Universal. Hoje 308 estações em 16
linhas, 226 km, 4,1 milhões de passageiros por dia. As entradas Art
Nouveau de Hector Guimard (ferro verde, globos âmbar) são tombadas como
monumento histórico. Cheiro particular: borracha quente, cera de piso,
metal. Clima: silencioso, cada um no seu livro, "pardon" se você toca no
ombro do outro.
O metrô carioca (Brasil, 1979–…) — Linha 1 inaugurada em 5 de março
de 1979, catorze anos depois do início das obras (interrompidas pela
ditadura). Hoje 3 linhas, 41 estações, 60 km, 900 mil passageiros por
dia — um décimo de Paris mas dez vezes mais refrigerado. Desde 2016, a
linha 4 liga Ipanema à Barra em preparação para os Jogos. Cheiro:
água de colônia, ar-condicionado gelado, protetor solar. Clima: conversa
em voz alta, funk carioca vazando do fone, todo mundo se cumprimenta ao
descer.
O confronto? Nenhum ganha. Não servem à mesma cidade:
- O metrô parisiense substitui o carro (ninguém tem).
- O metrô carioca complementa o carro (todo mundo tem, mas o
trânsito é um pesadelo).
O primeiro é uma rede capilar, vai a todos os cantos. O segundo é uma
coluna vertebral, liga as grandes praias ao centro. Um é íntimo, o
outro é arejado.
Os rituais que vêm junto
Do lado parisiense

O ritual parisiense do metrô cabe em três gestos: ticket (ou passe
Navigo), catraca (que emperra na hora errada de todo mundo), plataforma.
Na plataforma: azulejo branco abaulado, banco azul ou verde de plástico
moldado, placa oval em esmalte com o nome da estação. No vagão: silêncio
respeitado, jornal Le Monde dobrado em oito, livro de bolso, um
violinista romeno em Châtelet, um vendedor de balas em Belleville.
Ninguém fala, todo mundo olha para outro lado. Diz-se pardon para
passar, nunca escusa.
Do lado carioca

O ritual carioca do metrô cabe em três gestos diferentes: bilhete
(cartão recarregado), catraca (o giro que bipa), plataforma. Na
plataforma: concreto liso, telas que mostram a espera em minutos, bancos
metálicos brilhantes, um ar-condicionado gelado que te pega depois do
calor da rua. No vagão: conversa em voz normal, uma família voltando da
praia, um casal discutindo um jogo do Fluminense, alguém compartilhando
um fone da sua música. Diz-se com licença para passar, quase sempre
obrigado ao descer. Três vagões são reservados às mulheres no horário
de pico (lei de 2006).
O que esses metrôs nos contam
Um metrô é uma radiografia social. O metrô parisiense mistura todas
as classes num tubo estreito e barulhento — é o único lugar de Paris
onde um executivo financeiro e uma diarista se encontram apertados no
mesmo metro quadrado, por trinta minutos de encaramento constrangido.
O metrô carioca, por sua vez, é escolhido: a classe média-alta pega
o carro, a doméstica pega o ônibus. O metrô fica principalmente com as
classes médias e populares — até que um engarrafamento obrigue um
executivo a se render.
Dois túneis, dois climas, dois volumes sonoros. A mesma hora, o mesmo
cansaço.
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