Dois carros, duas nações. A 2CV Citroën na França, o Fusca Volkswagen
no Brasil. Nenhum era luxuoso. Ambos eram uma promessa: rodar, enfim,
para todos e todas. É onde a sociologia encontra o design.
O confronto
2CV (França, 1948–1990) — O caderno de encargos virou lenda:
"quatro pessoas, cinquenta quilos de batatas, e uma cesta de ovos
por um campo arado sem quebrar um único ovo." Um carro de agricultor,
adotado pelos intelectuais parisienses, virou ícone hippie, depois móvel
de brechó com rodas.
Fusca (Brasil, 1959–1996) — Versão brasileira do VW Käfer alemão,
montada em São Bernardo do Campo. Econômico, indestrutível, consertável
no martelo. Símbolo das rodovias dos anos 60-70, das viagens em família
para a praia, do primeiro carro que se compra, guarda vinte anos, e passa
aos filhos.
O confronto? Nenhum ganha. Ambos têm exatamente a mesma missão:
democratizar o carro. Ambos dizem a mesma coisa do seu povo —
"não é preciso ser rico para ser livre."
Os emblemas que vêm junto
Do lado francês

O savon de Marseille, cubo verde-oliva austero que sobreviveu a todos os
xampus modernos. A marinière de Coco Chanel, virou Jean Paul Gaultier.
O canivete Opinel n°8, faca camponesa atemporal. O cristal Baccarat
que pesa na mão. A bolsa Hermès, discreta pela forma, gritante pelo preço.
Do lado brasileiro

As Havaianas, sandália do povo nascida nos anos 60, mesmo código
sociológico da 2CV. A cachaça artesanal, alambique + cana + sol.
A rede, móvel portátil do Nordeste, soneca constitucional. O abadá
de capoeira, branco, largo, que diz esporte, dança e resistência ao mesmo
tempo. A camisa do Flamengo, rubro-negra, religião laica do Rio.
O que esses objetos nos contam
Um país se lê nos seus objetos ordinários. Aqueles que não se dá de presente,
que não se coleciona, que se usa todo dia sem pensar. O savon de Marseille
e as Havaianas não são franceses ou brasileiros: são franceses E brasileiros
no jeito de dizer popular, duradouro, sem frescura.
Talvez seja por isso que um brasileiro na França ou um francês no Brasil
se reconhecem tão rápido: identificam os mesmos sinais discretos.
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