Nível B1 · Desde o século XVI, França e Brasil mantêm laços muitas vezes desconhecidos : tentativas de colonização, missões artísticas, intercâmbios intelectuais. Um fio discreto, porém sólido, atravessa quinhentos anos de história em comum.
França-Brasil : cinco séculos de um laço discreto
Bia, estudante lusófona em São Paulo, acaba de topar com uma gravura antiga num livro : um homem de armadura finca uma bandeira com flores-de-lis à beira de uma baía tropical. « Mas… foi a França que quis colonizar o Rio ? », ela pergunta ao professor Lionel.
— Sim, exatamente. E não só uma vez : duas vezes, inclusive. Até os portugueses retomarem o controle.
Essa anedota abre uma história pouco conhecida : a das tentativas francesas de se estabelecer no Brasil, seguidas de uma presença cultural e científica que dura até hoje.
1. Os corsários normandos e a França Antártica (1555-1560)
Em meados do século XVI, o reino da França observava com inveja as riquezas do Novo Mundo. Em 1555, o almirante Nicolas Durand de Villegagnon desembarca na baía de Guanabara — onde hoje fica o Rio de Janeiro. Seu projeto : fundar uma colônia francesa, batizada de France Antarctique (« antártico » significava então simplesmente « ao sul do Equador »).
Villegagnon constrói um forte numa pequena ilha, acolhe huguenotes (protestantes franceses) em busca de refúgio, comercia com os tupinambás. Mas as dissensões religiosas, os conflitos internos e a resposta portuguesa põem fim à experiência. Em 1560, os franceses são expulsos. A França Antártica durou apenas cinco anos.
Vocabulário :
- un corsaire (m.) : marinheiro autorizado por seu rei a atacar navios inimigos
- une colonie (f.) : território controlado por um país estrangeiro
- chasser (verbo) : fazer sair à força
2. A França Equinocial (1612-1615)
Cinquenta anos depois, a França tenta de novo, desta vez no Nordeste brasileiro. Em 1612, Daniel de La Touche, senhor de La Ravardière, funda Saint-Louis du Maranhão (São Luís do Maranhão), na costa atlântica.
A ambição é a mesma : estabelecer uma presença francesa permanente, comerciar com os povos autóctones, rivalizar com Portugal. Essa segunda tentativa, chamada France équinoxiale (pois situada perto do Equador), tem o mesmo destino : em 1615, as tropas portuguesas retomam a cidade.
Hoje, São Luís guarda alguns traços arquitetônicos dessa época, especialmente no centro histórico tombado pela UNESCO. Mas a herança política francesa no Brasil para por aí : nenhuma colônia duradoura chegou a se consolidar.
3. A Missão Francesa das artes (1816)
Dois séculos depois, a relação ganha outro rosto. Em 1816, o rei Dom João VI (refugiado no Brasil desde a invasão napoleônica de Portugal) convida um grupo de artistas franceses ao Rio de Janeiro. Essa Mission artistique française reúne pintores, escultores, arquitetos, gravadores — entre eles Jean-Baptiste Debret e Nicolas-Antoine Taunay.
Qual o papel deles ? Fundar uma Academia Imperial de Belas Artes, formar artistas brasileiros, introduzir o neoclassicismo europeu. Debret ficará quinze anos no Brasil e produzirá uma obra documental extraordinária : centenas de desenhos e aquarelas representando a vida cotidiana, a escravidão, as festas, os ofícios. Sua Voyage pittoresque et historique au Brésil (1834-1839) continua sendo uma fonte visual inestimável.
Observação : O alemão Johann Moritz Rugendas, embora não seja francês, frequentemente aparece associado a essa missão na memória brasileira. Ele também pintará cenas do Brasil imperial.
Vocabulário :
- une mission (f.) : grupo de pessoas enviadas em missão oficial
- un peintre / une peintre : artista que pinta
- une aquarelle (f.) : pintura leve feita com água
4. O século XX : Claude Lévi-Strauss em São Paulo
Em 1935, um jovem professor de filosofia francês, Claude Lévi-Strauss, desembarca em São Paulo para ensinar sociologia na Universidade de São Paulo (USP), então novinha em folha. Ele fica até 1939 e aproveita as férias para realizar expedições etnográficas no Mato Grosso e na Amazônia.
Essas viagens darão origem a Tristes Tropiques (1955), um dos livros mais célebres da antropologia mundial. Lévi-Strauss descreve os povos nambiquara, caduveo, bororo, com uma escrita ao mesmo tempo científica e literária. O livro começa com esta frase famosa :
« Eu odeio as viagens e os exploradores. »
Paradoxalmente, Tristes Tropiques vira um clássico do relato de viagem. A obra de Lévi-Strauss marca profundamente a antropologia brasileira : várias gerações de pesquisadores brasileiros se formarão em Paris, em seu rastro.
Vocabulário :
- une expédition (f.) : viagem de exploração, muitas vezes difícil
- un peuple (m.) : grupo humano que compartilha uma cultura, uma língua
- le sillage (m.) : rastro deixado para trás (aqui, no sentido figurado)
5. Hoje : uma francofonia discreta
Diferentemente da África ou do Québec, o Brasil não é um país francófono. Ainda assim, o francês mantém uma presença simbólica :
- Educação : a rede das Alliances françaises conta com cerca de 40 estabelecimentos no Brasil. O aprendizado do francês segue popular nas classes médias e altas, frequentemente como « língua de cultura ».
- Cooperação científica : laboratórios mistos CNRS-universidades brasileiras trabalham na Amazônia (biodiversidade, clima), em ciências sociais, em física.
- Futebol : vários jogadores brasileiros célebres brilharam na França — Raí (PSG), Ronaldinho (PSG), Nenê (PSG, Monaco), Thiago Silva (PSG). Na direção contrária, franceses como Zidane ou Mbappé são ícones no Brasil.
- Literatura e cinema : as traduções de Balzac, Hugo, Flaubert, Camus seguem sendo clássicos nas livrarias brasileiras. O cinema francês (especialmente a Nouvelle Vague) influenciou o Cinema Novo de Glauber Rocha.
Essa francofonia discreta não vira manchete, mas ela tece uma rede duradoura de amizades, cooperações, referências culturais compartilhadas.
Mini-lexique FR → PT-BR
| Français | Portugais (BR) |
|---|---|
| un corsaire | um corsário |
| une mission | uma missão |
| une expédition | uma expedição |
| un peintre | um pintor / uma pintora |
| le sillage | a esteira (fig. : influência) |
Questões abertas para o estudante
- Você conhecia a história da França Antártica no Rio de Janeiro ? O que acha disso ?
- Você já leu ou viu obras de Jean-Baptiste Debret ? O que elas representam para você ?
- Na sua opinião, por que o francês continua sendo uma língua « de prestígio » no Brasil, apesar da ausência de uma colonização duradoura ?
— Lionel Philippe · vulgo « Monsieur Merci Bonjour »

