Charles de Gaulle : três atos de uma vida que redesenhou a França. Do apelo de Londres às ruas de Maio de 68, retrato de um homem que detestava agradar — mas que queria a grandeza. Nível B2 · 10 min
Em junho de 1940, um general quase desconhecido sobe até um microfone da BBC. Em maio de 1968, ele enfrenta um milhão de manifestantes nas ruas de Paris. Entre os dois : uma república inteira que ele refundou. Charles de Gaulle nunca buscou a popularidade — ele buscava o que chamava de « uma certa ideia da França ». Ideia vaga, ideia poderosa, ideia que atravessa ainda hoje a política francesa como um fantasma incômodo.
Este artigo traça três momentos-chave de sua trajetória : o apelo fundador de Londres, a longa travessia do deserto, e o retorno estrondoso que dará origem à Ve République — aquela na qual a França ainda vive em 2025.
O apelo de 18 de junho de 1940 : o nascimento de um mito
Em 17 de junho de 1940, o marechal Pétain anuncia no rádio que é preciso « cessar o combate ». A França acaba de perder a guerra em seis semanas. O exército alemão ocupa Paris. O governo se prepara para assinar o armistício.
No dia seguinte, em Londres, um general de 49 anos — subsecretário de Estado da Guerra há apenas três semanas — pega o microfone da BBC e pronuncia estas palavras :
« A França perdeu uma batalha ! Mas a França não perdeu a guerra ! »
Pouquíssimos franceses ouvem esse discurso ao vivo. Mas ele marca o ato de nascimento da France libre (França livre) : um exército no exílio, uma recusa da derrota, uma voz que diz « não » quando todo mundo baixa as armas. De Gaulle se torna, nesse dia, o chefe de uma resistência que ainda não existe — mas que vai se organizar aos poucos em torno dele, em Londres, na África, nos maquis (grupos de resistentes clandestinos).
O que marca os historiadores é a audácia política : de Gaulle não tem nenhuma legitimidade institucional. Ele é desconhecido do grande público. Ele desobedece ao seu governo. Mas se autoproclama chefe da França combatente — e manterá esse papel até a Libertação.
Um fato pouco conhecido : o apelo de 18 de junho nunca foi gravado. O que a gente ouve hoje é uma reconstituição feita alguns dias depois.
A travessia do deserto (1946-1958) : a recusa do compromisso
Em agosto de 1944, de Gaulle entra em Paris libertada como herói. Ele se torna chefe do governo provisório. Tudo parece ganho. No entanto, em janeiro de 1946, irritado com as brigas entre partidos políticos, ele renuncia abruptamente.
Abre-se então o que chamam de traversée du désert (travessia do deserto) : doze anos durante os quais de Gaulle fica afastado, instalado em sua casa de Colombey-les-Deux-Églises (uma aldeia de Haute-Marne, 400 habitantes). Ele escreve suas Mémoires de guerre, critica a IVe République — esse regime parlamentarista instável que ele julga incapaz de governar — e espera.
Esperar o quê ? Uma crise. Ela chega em 1958, com a guerra da Argélia. O exército francês ameaça dar um golpe de Estado. Os políticos, em pânico, chamam de Gaulle de volta. Ele aceita — mas põe suas condições : uma nova constituição, um poder executivo reforçado, o fim do regime dos partidos.
« Que voulez-vous, à mon âge, on ne commence pas une carrière de dictateur » (O que você quer, na minha idade, a gente não começa uma carreira de ditador), ele solta com ironia. Tradução do subtexto para lusófonos : « Estou velho demais para virar um tirano — mas vou mudar tudo mesmo assim. » É exatamente o que ele faz.
A Ve République (1958-1969) : um poder sob medida
Em 28 de setembro de 1958, os franceses aprovam por referendo (79 % de sim) a nova constituição. A Ve République (Quinta República) nasceu. Ela dá ao presidente poderes consideráveis : ele nomeia o primeiro-ministro, pode dissolver a Assemblée nationale, desencadear um referendo, tomar plenos poderes em caso de crise (artigo 16).
De Gaulle se torna presidente em dezembro de 1958. Seu primeiro canteiro de obras : a Argélia. Ao contrário do que esperavam os militares que o chamaram de volta, ele não escolhe a Argélia francesa. Em 1962, depois de anos de guerra atroz (300 mil mortos), ele assina os accords d’Évian : a Argélia se torna independente. Uma parte do exército se revolta (putsch de abril de 1961, atentados da OAS). De Gaulle se mantém firme.
Outras grandes decisões :
- Política externa independente : saída da OTAN (1966), recusa da hegemonia americana, desenvolvimento da arma nuclear francesa.
- Reconciliação franco-alemã : traité de l’Élysée (1963) com Konrad Adenauer.
- Modernização econômica : expansão industrial, planejamento do território, Concorde, TGV.
Mas em maio de 1968, tudo vira de cabeça para baixo. Os estudantes ocupam a Sorbonne. Os operários entram em greve (10 milhões de grevistas). De Gaulle, envelhecendo, não entende essa revolta cultural e libertária. Ele tenta um referendo em abril de 1969 — voto de confiança disfarçado. Os franceses votam não. Ele renuncia na mesma noite.
« Je cesse d’exercer mes fonctions de président de la République. Cette décision prend effet aujourd’hui à midi. » (Deixo de exercer minhas funções de presidente da República. Esta decisão entra em vigor hoje ao meio-dia.) Sem drama, sem justificativa : uma saída seca, à moda de Gaulle.
Ele morre em Colombey dezoito meses depois, em 9 de novembro de 1970.
O legado : por que isso importa para entender a França hoje
Quadro especial :
A Ve République gaullista ainda estrutura toda a vida política francesa em 2025. Veja por quê :
- Presidencialismo : o presidente francês tem poderes que nenhum outro chefe de Estado europeu possui. É uma herança direta de 1958. Todos os presidentes desde então (Pompidou, Giscard, Mitterrand, Chirac, Sarkozy, Hollande, Macron) governam no quadro institucional que de Gaulle criou.
- Referendo : de Gaulle adorava consultar diretamente o povo por cima da cabeça dos partidos. Essa prática virou um reflexo — às vezes arriscado (cf. o não ao referendo de 2005 sobre a Europa).
- Independência nacional : a ideia de que é preciso recusar toda subordinação aos Estados Unidos ou a Bruxelas é uma marca identitária francesa herdada do gaullismo. Ela atravessa direita e esquerda.
- O « romance nacional » : de Gaulle construiu a narrativa de uma França unida na Resistência. Essa narrativa mascarou por muito tempo as realidades mais complexas de Vichy e da colaboração. Até hoje, essa memória oficial gera debate.
- O estilo : verticalidade, solenidade, recusa da familiaridade midiática — tudo o que ainda define o ethos (etos, maneira de ser) presidencial francês vem dele. Mesmo os presidentes que se afastam disso (Hollande, Macron) são julgados à luz desse modelo.
Mini-lexique (FR → PT-BR)
| Français | Portugais (Brasil) |
|---|---|
| traversée du désert | travessia do deserto (período de ostracismo político) |
| maquis | maquis (grupos de resistência clandestina, 1940-1944) |
| putsch | golpe militar |
| référendum | referendo |
| pleins pouvoirs | plenos poderes |
| OAS | OAS (Organização do Exército Secreto, grupo terrorista pró-Argélia francesa) |
| ethos | etos (caráter, estilo moral) |
| à l’aune de | à luz de, em comparação com |
Charles de Gaulle não foi um democrata modelo — ele detestava os partidos, desprezava os jornalistas, governava sozinho. Mas ele ofereceu à França um quadro institucional estável depois de setenta anos de regimes frágeis. Esse quadro ainda se mantém. Para o melhor — e às vezes para o pior.
— Lionel Philippe · alias « Monsieur Merci Bonjour »

