Nível C1 · Um grande debate historiográfico sacudiu a França em meados dos anos 2000 : podemos comparar os diferentes tráficos negreiros sem relativizar o horror da escravidão atlântica ? Este artigo explora os trabalhos que alimentaram a controvérsia — e os que tentam superá-la.
A historiografia do tráfico negreiro : Pétré-Grenouilleau, Coquery-Vidrovitch e os caminhos de uma história despaixonada
Em 2005, um historiador francês se viu processado por ter ousado escrever que o tráfico atlântico não era o único. Olivier Pétré-Grenouilleau, autor de uma obra de referência intitulada Les Traites négrières, acabara de desencadear sem querer uma tempestade memorial cujas réplicas ainda ressoam hoje. No centro do debate : a legitimidade de uma história comparada dos tráficos — atlântico, oriental, intra-africano — e o risco de instrumentalização ideológica da pesquisa universitária.
Essa controvérsia não é apenas uma briga de historiadores. Ela levanta uma questão espinhosa : como escrever a história da escravidão sem minimizar as responsabilidades europeias, e ao mesmo tempo dar conta da complexidade global do fenômeno ? Os trabalhos recentes de Catherine Coquery-Vidrovitch, Éric Mesnard ou ainda do brasileiro Luiz Felipe de Alencastro desenham os contornos de uma historiografia exigente, que recusa tanto o anacronismo moral quanto a amnésia seletiva.
O livro que desencadeou tudo : Les Traites négrières (2004)
Olivier Pétré-Grenouilleau publica em 2004 uma síntese monumental de mais de 450 páginas, premiada com o prêmio do Senado francês de livro de história. A ambição ? Abarcar todos os tráficos negreiros na longa duração : o tráfico transatlântico (séculos XV-XIX), o tráfico oriental com destino ao mundo árabe-muçulmano (séculos VII-XX), e os tráficos intra-africanos. A obra compila os dados quantitativos disponíveis, cruza as fontes árabes, europeias e africanas, e propõe uma grade de leitura de historiador, não de promotor.
O tom é sóbrio, o método rigoroso. Pétré-Grenouilleau lembra que cerca de 11 milhões de africanos foram deportados para as Américas, 17 milhões para as terras do islã, e que milhões de outros foram reduzidos à escravidão dentro do continente africano. Esses números, já conhecidos pelos especialistas, não visam « diluir » a responsabilidade europeia, mas recolocar o tráfico atlântico num sistema escravista global e milenar.
O problema surge em junho de 2005, durante uma entrevista ao Journal du dimanche. Questionado sobre as « responsabilidades » do tráfico, Pétré-Grenouilleau declara que « os tráficos negreiros não são genocídios » no sentido jurídico do termo, e que é cientificamente desonesto ocultar os tráficos não europeus. Alguns dias depois, o Coletivo dos Antilhanos, Guianenses, Reunionenses e Maoreses (Collectif DOM) o processa por « contestação de crime contra a humanidade », invocando a loi Gayssot de 1990. O caso ganha grande repercussão. Dezenove historiadores renomados — entre eles Pierre Nora, René Rémond, Jean-Pierre Azéma — assinam uma petição pedindo « liberdade para a história ». A queixa acaba sendo retirada, mas o mal-estar permanece.
Catherine Coquery-Vidrovitch : a longa duração africana
Especialista reconhecida da África subsaariana, Catherine Coquery-Vidrovitch dedicou parte de sua carreira a documentar os tráficos desde a África, e não somente para a América ou o Magrebe. Em Être esclave en Afrique (2013, codirigido com Myriam Cottias e Éric Mesnard), ela lembra uma realidade frequentemente silenciada : a escravidão doméstica africana preexistia à chegada dos europeus e sobreviveu à abolição formal do tráfico.
Coquery-Vidrovitch desconfia dos anacronismos : comparar a escravidão « doméstica » saheliana — onde os cativos podiam às vezes acessar posições de poder — e a escravidão de plantation nas Antilhas é uma impostura intelectual. Mas ela também recusa apagar essa dimensão : os reinos do Daomé, do Kongo ou dos Ashanti alimentaram maciçamente o tráfico atlântico, não por « cumplicidade passiva », mas por cálculo econômico e político.
Esse posicionamento equilibrado contrasta com os discursos militantes que gostariam de fazer do tráfico um crime exclusivamente europeu. Coquery-Vidrovitch escreve : « A história não é uma contabilidade moral. Ela é uma investigação exigente sobre o que aconteceu. » Frase que poderia servir de divisa para toda a historiografia contemporânea do tráfico.
Luiz Felipe de Alencastro : a conexão Brasil-Angola
Ignorado com frequência na França, o historiador brasileiro Luiz Felipe de Alencastro publicou em 2000 uma obra decisiva : O trato dos viventes. Nela, ele demonstra que a colonização do Brasil e o tráfico negreiro atlântico formam um sistema único, articulado em torno do eixo Rio de Janeiro–Luanda. Segundo ele, o Brasil colonial não é apenas um « destino » para os cativos africanos : é uma entidade bipolar, cujo « centro de gravidade econômico » se situa em Angola.
Alencastro estima em 5 milhões o número de africanos deportados para o Brasil entre 1550 e 1850, ou seja, cerca de 45 % do total transatlântico. Ele insiste no papel dos pombeiros — intermediários africanos ou mestiços — e dos sertanejos brasileiros que, desde o século XVII, organizavam expedições de captura no interior das terras angolanas. Essa perspectiva « Sul-Atlântica » rompe com uma visão excessivamente eurocentrada do tráfico. Ela também convida a pensar as continuidades : o Brasil só aboliu a escravidão em 1888, ou seja, 60 anos depois da França, 23 anos depois dos Estados Unidos.
Éric Mesnard e a pedagogia do debate
Professor de história no ensino médio e depois formador, Éric Mesnard codirigiu várias obras pedagógicas sobre o ensino do tráfico e da escravidão. Em Enseigner l’histoire de l’abolition de l’esclavage (2009), ele defende uma abordagem « descentralizada » : mostrar aos alunos que o tráfico não é nem um acidente da história europeia, nem um complô planejado, mas um sistema econômico que se desenvolveu em quatro continentes durante quatro séculos.
Mesnard defende uma linha mediana : sim, é preciso ensinar os tráficos oriental e intra-africano ; não, isso não relativiza em nada a singularidade do sistema escravista colonial, fundado na racialização e na exploração em massa. Ele lembra que em 1848, no momento da abolição francesa, Victor Schœlcher estimava em 250.000 o número de escravos apenas nas colônias francesas. Um número que, relacionado à população total da França metropolitana (35 milhões), dá uma ideia do peso econômico da escravidão.
A Rota do Escravo : um projeto da UNESCO sob tensão
Lançado em 1994, o projeto « A Rota do Escravo » visa documentar, comemorar e ensinar a história dos tráficos negreiros. Sob a tutela da UNESCO, ele permitiu financiar pesquisas na África Ocidental, no Caribe, no Brasil, nos Estados Unidos. Mas o projeto não está isento de tensões políticas.
Certos países africanos relutam em documentar sua participação ativa no tráfico : no Benin, o « memorial de Ouidah » evoca pudicamente os « intermediários locais » sem nomear os reis do Daomé. Por outro lado, associações antilhanas criticam a UNESCO por « afogar » o tráfico atlântico num relato globalizado que diluiria as responsabilidades europeias. O debate continua aceso : é preciso uma memória plural ou uma memória hierarquizada, onde o tráfico transatlântico permaneceria o « crime maior » ?
É preciso « colocar na balança » os diferentes tráficos ?
A questão que incomoda. Olivier Pétré-Grenouilleau foi acusado de querer « relativizar » o tráfico atlântico ao evocar os 17 milhões de cativos deportados para o mundo muçulmano. Mas essa acusação se sustenta ?
Vários argumentos defendem uma abordagem diferenciada sem hierarquização moral :
- Duração e amplitude : o tráfico oriental se estende por treze séculos (VII-XX), contra quatro para o tráfico atlântico (XV-XIX). Mas o tráfico atlântico foi quantitativamente mais intensivo.
- Racialização : o tráfico atlântico se baseia numa ideologia racial (o Code Noir de 1685 assimila o escravo a um « móvel »), ausente do tráfico muçulmano clássico, onde a escravidão é um status jurídico, não racial.
- Rastros demográficos : no Brasil, 56 % da população se declara negra ou mestiça hoje. No Magrebe e no Oriente Médio, os descendentes de escravos negros são quase invisíveis. Por quê ? Mortalidade mais elevada, castração dos homens, baixa reprodução em cativeiro.
Escrever a história de todos os tráficos não é, portanto, um gesto de « colocação na balança », mas um imperativo científico. Desde que nunca se perca de vista as singularidades de cada sistema. Catherine Coquery-Vidrovitch diz melhor que ninguém : « A história não absolve nem condena. Ela explica. »
Bibliografia comentada
| Título | Comentário |
|---|---|
| Olivier Pétré-Grenouilleau, Les Traites négrières (Gallimard, 2004) | Síntese magistral e controversa. Abordagem quantitativa, perspectiva global. Indispensável apesar da (ou graças à) polêmica. |
| Catherine Coquery-Vidrovitch, Myriam Cottias, Éric Mesnard (dir.), Être esclave en Afrique (La Découverte, 2013) | Coletânea pluridisciplinar. Excelente contraponto às visões binárias. Desconstrói os mitos sem resvalar no revisionismo. |
| Luiz Felipe de Alencastro, O trato dos viventes (Companhia das Letras, 2000) | Imprescindível para entender o eixo Brasil-Angola. Ainda não traduzido para o francês (lacuna editorial incompreensível). |
| Hugh Thomas, La Traite des Noirs (Robert Laffont, 2006) | Monumento anglo-saxão de 900 páginas. Relato detalhado, quase romanesco. Traduzido do inglês, denso mas legível. |
| Éric Mesnard, Marie-Albane de Suremain (dir.), Enseigner l’histoire de l’abolition (CRDP Créteil, 2009) | Obra pedagógica. Propõe sequências prontas para o ensino médio. Útil para professores, mas também para qualquer leitor que queira estruturar seu pensamento. |
A história do tráfico negreiro continua sendo um campo de batalha memorial tanto quanto um objeto de pesquisa. Entre a amnésia cúmplice e a instrumentalização vitimária, os historiadores traçam um caminho estreito : o do rigor documental, da contextualização fina e da recusa de toda hierarquia moral a priori. O debate francês de 2005 deixou marcas. Mas também esclareceu as questões em jogo : podemos — devemos — escrever uma história mundial do tráfico sem apagar a singularidade do crime escravista colonial. É essa exigência que carregam, cada um à sua maneira, Pétré-Grenouilleau, Coquery-Vidrovitch, Alencastro e tantos outros. Uma exigência que nos obriga : leitores, cidadãos, herdeiros de um passado que ninguém pode desfazer, mas que cada um pode compreender.
— Vincent · vulgo « Monsieur Merci Bonjour »

